Depoimento de Valdir Zwetsch, jornalista da Rede Record, nascido no interior do Rio Grande do Sul e corintiano desde que saiu do berço.
“Não virei corintiano: nasci corintiano. Em Santa Maria, Rio Grande do Sul, 1947. Naqueles tempos de Rádio Nacional, o “primeiro time” de qualquer um era de São Paulo, ou do Rio. Depois, em segundo lugar, vinha o Inter ou o Grêmio. Meu irmão mais velho torcia para o Corinthians e para o Vasco. E na cidade tinha – tem até hoje – um time de basquete que mandava bem nos campeonatos regionais. Como se chamava? Corinthians! (fui lá, há alguns anos, comprar umas camisetas pra dar pros meus filhos – todos corintianos, graças a Deus! – e tomei um susto: acredite, as cores do Corinthians de Santa Maria são branco e… verde!!!!
A primeira memória de corintiano? Não, não vou falar da primeira, mas da mais forte do passado: cheguei em São Paulo em 1969. Fui trabalhar na revista O Cruzeiro, que ficava na rua Sete de Abril. Em frente tinha o prédio da Telefônica, de onde se faziam as ligações interurbanas. Um dia, estava eu a esperar a minha chamada para Porto Alegre, e notei que a maioria das telefonistas estava com um ouvido no telefone e outro no radinho. Era jogo do Corinthians, sei lá contra quem. De repente, gol! Gritos, berros, vivas – e a telefonista que estava mais perto de mim exclama: – Gol! Gol! Do Rivelino!!! Ele é lindo!!!
Meu primeiro ídolo, ainda da minha infância, foi o goleiro Gilmar – representante corintiano na seleção de 1958, campeã mundial na Suécia. Agora, quanto ao primeiro jogo que fui, como eu era do Sul, só podia assistir partidas de lá, e foi um Gre-Nal, anos 60. Descobri o Colorado, um time do povão, uma espécie de Timão com sotaque. Já morando em São Paulo, costumava assistir jogos do Timão. Frequentava estádios. Muito. Levava meus filhos, os três. Muito. Agora vou muito pouco: passei dos 60, não tolero a violência da galera que só vai pra dar e tomar porrada, nossos estádios são uma droga, e o conforto da tevê me permite ver o jogo mais de perto – apesar de que as transmissões são sofríveis (nunca vi ninguém cortar tão mal, minha impressão é de que todos os diretores de tevê escalados para os jogos detestam futebol! Ou será que é da regra cortar para a cara do técnico na hora do melhor drible, e ainda manter mais do que longos dois segundos aquela imagem no ar?). Ia falar do narrador… mas precisa?
De que jeito eu observo o Timão lá no campo? Bem, todo brasileiro é técnico de futebol, mas confesso que ainda não consegui detectar, nunca, no campo, quando o time tá no 4-4-2 ou no 3-5-2… Mas, cá entre nós, tem muito técnico e comentarista de verdade que também não distingue… A maior emoção que já vivi foi em 1977. Morumbi. Basílio, o Pé de Anjo! Sem esquecer, é claro, do magnífico Ruy Rei!
Qual foi a minha maior alegria? Ah…. essa é fácil. Eu estava lá, no Pacaembu, com meus filhos, foi em novembro de 2005. O jogo era contra o Santos, que tinha Ricardinho. Nós tínhamos Tevez e Nilmar. No final, quando já estava 6 X 1, o Marcelo Matos (!) pediu pra bater uma falta. Era só o que faltava: 7 a 1!
Já a maior tristeza foi a final do Campeonato Brasileiro de 1976. Eu morava em Florianópolis. Depois da Invasão Corintiana do Maracanã, decidi ir para Porto Alegre especialmente para assistir a final contra o Inter. No gramado. Preciso dizer mais? (foi 0×2)
Vou te dizer: não sou de briga. Mas passei um sufoco danado num Corinthians x Santos no Morumbi. Fui com o Chico Malfitani (também jornalista) e outros amigos. Ele é um dos fundadores da Gaviões da Fiel – e antes do jogo começar já arranjou porrada com… outros corintianos!!! Durante o jogo, mais uma! E na saída, quando já estávamos fora do estádio (e o Corinthians tinha perdido o jogo) resolveu chutar a porta de uma Kombi que tinha um adesivo do Santos no parabrisa. Obviamente, ela estava lotada. De santistas. E todo mundo desceu.
Atualmente, posso dizer com segurança que o time está bom. Muito bom. Tenho visto vários jogos, não vejo no Brasil ninguém jogando com tanta segurança quanto o Coringão. Mas dá pra esquecer aquele time que tinha o Doutor, Casão, Wladimir e Biro Biro?
Você me pergunta se a Fiel empurra o time??? Ora, a Fiel empurra o País!! Não tem pra mais ninguém. Nossa torcida é única. Tirando os babacas que vão pro estádio só pra arranjar encrenca, a Fiel verdadeira, a Fiel de sangue e alma, é aquilo que o Timão sempre teve de melhor.
Não sou supersticioso, não. Mas desde o ano passado, na gloriosa campanha na Segundona do Brasileirão, assisto todos os jogos com a mesma camisa. É uma branca, número 10 nas costas. Quando ia a estádios, a sensação de entrar, sentar na arquibancada com um bando de loucos, é emoção com certeza. Qualquer jogo. Se eu dei vexame por causa do Timão? Vexame, meu? Vexame é torcer pro São Paulo!
O maior timão que eu já vi jogar é o da Democracia Corintiana. Dr. Sócrates, Mestre Wladimir, mano Casão… Se a revolução desse time não tivesse sido abortada, o futebol no Brasil hoje seria melhor. Para os jogadores e para os torcedores – que é o que interessa.
Quanto à Copa Libertadores em 2010, espero que a final seja aqui no Pacaembu. De preferência contra o São Paulo, ou contra o River. Já mandei fazer a faixa…