Meu ídolo tem nome de brasileiro, aliás, nome de corintiano do povão, da massa trabalhadora.
Adãozinho. Me apaixonei, como toda a Fiel Torcida, logo na estréia.
Fogueira maior que Joana D’Arc enfrentaria. Um frio de arrepiar pingüim no Morumbi, e o Palmeiras sai logo na frente. Um gol aos 5’, mais outro aos 9’, os dois do César Maluco. Também, nossa defesa era um queijo suíço, com Luís Carlos Galter de beque central (o Ditão , o gaúcho Sadi como quarto-zagueiro (ele que era um bom lateral-esquerdo, e ponto), e o Pedrinho pela canhota. Na ala direita, o SuperZé, mas o inimigo não encarava. O Hector Silva e o Ademir da Guia comandavam o baile pelo nosso setor esquerdo, e foi desse jeito que o Timão e a Fiel saíram para o intervalo temendo um desastre histórico.
No vestiário, enfumaçado com tantas velas acesas pelo treinador Chico Sarno (pai da jornalista Zezé Sarno, da GloboNews, outra corintiana de muitos costados), pintou o milagre. “Vem aqui, garoto, você vai entrar”, falou o treineiro para o Adãozinho. Um mulatinho jeitoso, mas assustado com o tamanho da encrenca. Ali no vestiário dava para ouvir o silêncio da Fiel (67 mil pagantes, dos quais 80% gente nossa). O Rivellino deu força: “Faz o seu, Adão, que nós vamos virar”, sussurrou, sem acreditar muito nas próprias palavras.
O jogo recomeçou. Os verdes continuaram mandando no meio de campo. Aos 5’, numa bola disputada na grande área, o Mirandinha carimbou as redes do poderoso Leão. Pra que, meu amigo! A Fiel enlouqueceu, começou a berrar e a pular, as arquibancadas geladas ferveram num minuto, o jogo virou um inferno para os inimigos. Mas não seria fácil, não. Eles eram conhecidos como ‘Academia’, com Leão, Eurico, Luís Pereira, Dudu e Ademir, Leivinha e César. Mas do lado de cá tinha raça, e tinha a Fiel empurrando as camisas brancas. Que frio, que nada, só dava Timão no ataque. Aquele mulato Adãozinho até que levava jeito, tocava a bola de primeira, não fazia firula nem enfeite. Foi assim que, aos 24’, ele recebeu a bola no círculo central. Avançou alguns passos, viu o Leão imóvel na linha da pequena área e mandou um canhão de esquerda. A bola subiu, subiu, subiu, e foi morrer no ângulo direito. Que pancada, meu! Um chute de 40 metros, golaço pra acordar defunto!
A Fiel pirou de vez.
Mas, enquanto as arquibancadas rugiam e tremiam, o inimigo deu a saída, foi para o ataque e a bola sobrou livre para o Leivinha desempatar, de novo. Desgraça! Na primeira jogada após a saída, eles faziam 2 a 3.
É, mas a bruxa estava solta. O time deu a nova saída, e o Tião, que fazia par com o Rivellino, pegou a bola e resolveu avançar, ele que era volante. Aparecia pela frente um de camisa verde, Tião driblava curto e seguia; vinha outro, outro drible; mais um, e o Tião já estava perto da área. E foi de lá mesmo que ele despachou um canudo certeiro. Leão nem viu onde passou a bola. Novo empate do Timão. Já pensou que loucura? Três gols em três minutos, sendo dois nossos!
Pô, aí o técnico Sarno, lá no banco, gritou para os jogadores ficarem espertos, não dar mole para mais um gol do Palestra. Mas nem eles acreditavam numa contravirada, porque era a inversão completa do grande clássico. E o último capítulo estava por vir.
Faltando dois, três minutos, bola na área deles. Bate rebate, confusão geral, e aí o Mirandinha cortou o Baldocchi prum lado, depois pro outro, e chutou no contrapé do Leão. Timão 4 a 3! Que felicidade!!!
Mais que a virada, mais que os quatro gols em cima do prepotente Leão, o que valeu foi a glória de ter descoberto aquela jóia de meia chamado Adãozinho! Tinha o estilo do Rivellino, a pancada do Rivellino, a ousadia do Reizinho. Só tinha, e a Fiel descobriria dali para a frente, era uma tendência para engordar e perder a forma.
Grande Adão Ambrósio (17/10/1951)! Passou alguns anos no Parque e ajudou no título de 1977. Mas a grande partida do Adãozinho foi mesmo a da sua estréia, na tarde gelada de 25 de abril de 1971, 4 a 3 em cima dos porcos. Por isso, ele é meu ídolo inesquecível.