O maior e melhor testemunho foi dado por Nelson Rodrigues, jornalista, autor de teatro, cronista e escritor, além de fanático torcedor fanático do Fluminense. Colunista de várias seções do Globo, onde escrevia sobre esporte, costumes e polícia (’A Vida Como Ela É’), descreveu com rara precisão, de seu ponto de vista carioca tricolor:
“Ninguém sabia, ninguém desconfiava. O jogo começou na véspera, quando a Fiel explodiu na cidade. Durante toda a madrugada, os fanáticos do Timão faziam uma festa no Leme, em Copacabana, Leblon, Ipanema. E as bandeiras do Corinthians ventavam em procela. Ali, chegavam os corintianos, aos borbotões. Ônibus, aviação, carros particulares, táxis, a pé, a bicicleta. A coisa era terrível. Nunca uma torcida invadiu outro estado com tamanha euforia. Um turista que por aqui passasse, havia de anotar no seu caderninho: – O Rio é uma cidade ocupada. Os corintianos passavam a toda hora e em toda parte”.
Naquele dezembro calorento de 76, o Corinthians desafiou a noite da ditadura, com um movimento de massas jamais visto no País, representado pelo deslocamento simultâneo de um exército de quase cem mil pessoas, num percurso de 400 quilômetros. De trem, avião, carro, caminhão, mas sobretudo de ônibus, os torcedores ocuparam a via Dutra a partir da tarde de sábado, transformando a estrada numa avenida interminável. Assim que começou a escurecer, as passarelas sobre a Dutra passaram a ser ocupadas por outros torcedores que, desfraldando bandeiras alvinegras, saudavam a passagem do cortejo contínuo e incessante. Dos ônibus e dos carros, os fiéis saudavam o apoio solidário. E assim o asfalto da Dutra testemunhou a invasão, que já à noite engalanou as calçadas praianas da Zona Sul. Do Arpoador a Copacabana, do Leme a Ipanema, a ‘paulistada’ se espalhava, feliz e orgulhosa, sorvendo a paisagem daquela Cidade Maravilhosa que a maioria só conhecia de ouvir falar, de ver em fotografias ou em filmes. No sotaque carregado da Moóca ou de Mococa, corintianos de todas as plagas davam um colorido especial ao célebre balneário. Os locais assistiam o fenômeno da invasão com resignada simpatia, porque em relação ao prognóstico, não havia a menor dúvida. A Máquina Tricolor, comandada por ninguém menos que Roberto Rivellino, vinha atropelando os adversários, e o presidente Francisco Horta, juiz de Direito e o tipo do torcedor falastrão, falavam no título brasileiro como favas contadas.
Não era para menos. O Tricolor tinha figuras carimbadas de Seleção Brasileira. No gol, o mineiro Renato. Nas laterais, o veloz Rubens Galaxe e o imponente Rodrigues Neto. Na zaga, Carlos Alberto Torres, que pela experiência preteriu a lateral pelo jogo de sobra, formando dupla com Edinho, titularíssimo da Seleção. Pelo meio de campo, então, o brilho era de ofuscar qualquer paulista: os jovens Cléber e Erivélton, e o ex-Reizinho do Parque. Na frente, o ‘Búfalo’ Gil, o gringo Doval e o formiguinha Dirceu, uma versão pós-Copas de Zagalo. Chamava-se Flu, mas a imprensa carioca só titulava por A Máquina, tamanho era o seu carisma.Não era para menos. O Tricolor tinha figuras carimbadas de Seleção Brasileira.
No gol, o mineiro Renato.
Nas laterais, o veloz Rubens Galaxe pela direita, e o imponente Rodrigues Neto, identificável por uma curiosa tonsura de nascença, à semelhança de um padre, pela esquerda.
Na zaga, Carlos Alberto Torres, que pela experiência preteriu a lateral pelo jogo de sobra, formando dupla com Edinho, titularíssimo da Seleção.
Pelo meio de campo, então, o brilho era de ofuscar qualquer paulista: os jovens Cléber e Erivélton, revelações preciosas, escoltando o ex-Reizinho do Parque.
Na frente, o ‘Búfalo’ Gil, o gringo Doval e o formiguinha Dirceu, uma versão pós-Copas de Zagalo.
Chamava-se Flu, mas a imprensa carioca só titulava o conjunto de A Máquina, tamanho era o seu carisma.
Quanto ao Coringão, não passava de um Davi bem raquítico.
No último reduto aparecia Tobias, de apelido ‘Negro Gato’. Mas não era nem tão negro nem tão gato. Às vezes, engolia seus perus.
Nas alas, sim, duas personificações do espírito mosqueteiro. Zé Maria, o Superzé, dono da camisa 2 da Seleção desde a Copa de 70, sem dúvida o ícone maior da Fiel Torcida. No outro lado, um legítimo prata-da-casa, honrando a tradição de Neco, Teleco, Idário, Luisinho, Rafael e tantos outros, o ‘Neguinho’ Vladimir, ágil como poucos, infalível nos botes sobre o ponta inimigo, jamais ultrapassado. Zé e Vladimir eram âncoras da Fiel, naquilo que a fé corintiana tinha de mais vital.
No centro da defesa, o xerifão Moisés, carioca de ginga, malícia e carnaval, tanto que foi um dos criadores do Bloco das Piranhas, grupo que saía na véspera de carnaval com os componentes obrigatoriamente vestidos como mulheres. Autor da célebre frase ‘zagueiro que se preza não ganha o Belfort Duarte’, troféu que homenageia a disciplina do atleta ao cabo de muitos anos, Moisés dizia sem pudor que nenhum árbitro tinha coragem de expulsar jogador antes dos quinze minutos. Era a sua senha para distribuir ameaças, caretas e pontapés em cima dos atacantes rivais, até que esse prazo expirasse. Formou uma dupla famosa pela ausência de estilo e técnica com o capixaba Fontana, no Vasco. Pois então o Timão apresentava Moisés, enquanto o outro lado despontava com Carlos Alberto. Haja diferença!
Mas corintiano que se preza, especialmente a geração dos anos de jejum e de chumbo (referência ao período militar do País), não era chegado numa estética. Valia era a raça, a entrega, o empenho até para salvar uma bola saindo pela lateral. Uma camisa branca manchada de sangue, ou uma faixa de gaze circundando a testa, então, levava a uma catarse coletiva em torno do personagem em campo. Voltando a 1976, Maracanã. Nosso suburbano Moisés formava dupla com outra cria do Parque, o religioso Zé Eduardo, dono de apurada técnica, bom marcador. Não fez carreira longa no clube porque no ano seguinte, o da virada, 1977, teve de mudar de estilo, por determinação expressa de Oswaldo Brandão, o famoso Caçamba. Numa de suas primeiras preleções, Brandão apontou para Zé e discursou: “Defesa minha tem de chegar junto, sem essa de jogar bonito. O negócio é chegar junto, na bola ou no inimigo”. Dali por diante, o quarto zagueiro rezou pela nova cartilha e se transformou num legítimo beque de fazenda. A Fiel até que gostou.
O meio de campo corintiano podia ser feio em todos os sentidos, mas tinha raça. Era o que importava. Givanildo vestia a 5. Importado do Santa Cruz, de Recife, era um baixinho atarracado, de toque vistoso na bola, forte marcador. Tinha chegado à Seleção naquele ano, por sinal comemorativo do Bicentenário da Independência dos EUA. Givanildo ajudou a conquistar a Copa do Bicentenário, disputada em Boston, com várias seleções importantes. Com ele, no Corinthians, aparecia Ruço, sem nenhuma credencial que não fosse a origem, Madureira, berço do jogo do bicho e da Portela, afora outras escolas de samba menos famosas e muitos ranchos carnavalescos. Meia de origem, Ruço acabou se fixando como um volante de apoio, pela direita. A ligação com a linha de frente, ao menos nesse domingo de decisão, seria feita pelo gaúcho Neca, que tinha vindo do Grêmio. Givanildo, Ruço e Neca. Esse era o trio de armação, para enfrentar o talento de Cleber, Erivelto e Rivellino. Mas a Fiel nem queria saber de comparações.
Na frente, o voluntarioso Vaguinho, que fazia boa parceria com o centroavante Geraldão, adquirido junto ao Botafogo de Ribeirão Preto. Pela ponta esquerda, o excêntrico Romeu, que, igual a Vaguinho, veio do Galo mineiro.
Dava pra apostar no alvinegro?
A crítica não dava um tostão. A lógica, idem. Mas, naquele 5 de dezembro, a Fiel derrubaria todas as evidências para empreender o primeiro capítulo de sua redenção de nação. A tarde, como a manhã e a véspera, reinava ensolarada sobre o Rio. Nas proximidades do estádio, centenas de ônibus de excursão – centenas, repita-se – ofereciam inusitada paisagem nos enormes espaços vizinhos. Os corintianos circulavam por ali, animados, muitos sem camisa, aproveitando o calor. Antes das 4h, o céu pretejou, ribombaram trovões, e uma tempestade desabou. Quem podia, corria, quem não podia se ensopava. As arquibancadas de repente ficaram vazias, com a correria desenfreada em busca dos poucos corredores de circulação cobertos.
O estádio estava lotado, mas a chuva não dava mostras de trégua. O gramado aparecia inteiramente encharcado, uma piscina esverdeada. Aos poucos, a água foi diminuindo, o temporal virou uma garoa forte. O árbitro Saul Mendes subiu dos vestiários para inspecionar as condições do campo. A rigor, elas não existiam, mas o homem de preto percorreu a extensão dos 110 metros, conferenciou com outros homens vestidos de preto, e desapareceu nas catacumbas do Maracanã. Pelo rádio, os repórteres informavam as últimas. Até que veio a confirmação óbvia. Ainda que não portasse condições adequadas de jogo, não havia datas disponíveis no calendário, e a cúpula da CBF determinou a realização do confronto.
As arquibancadas voltaram a ser ocupadas, sob uma garoa leve, e alguns minutos após as 5h, o ansiado clássico começou. E só dava Fluminense, claro. Ainda que obrigados a se adaptar ao gramado molhado, alçando bolas pela impossibilidade de fazê-la rolar, os cariocas ocupavam a metade corintiana. Aos 19’, recebendo um cruzamento da direita, Pintinho desviou e a bola entrou, 1×0 no placar. Nenhuma surpresa, salvo para os corintianos, que contra todas as evidências, insistiam em apostar na própria fé. E, como ela remove montanhas, não demorou muito para acontecer um improvável milagre. Escanteio batido da esquerda, o goleiro Renato tirou de soco, mas a bola não saiu da área. Quando ela começou a descer, Ruço ensaiou uma puxeta e, de pé direito, finalizou para marcar o gol de empate. Era o primeiro golpe na honra tricolor, vitimada por um lance extemporâneo, sem nenhuma construção estilística, um toque que Leônidas jamais assinaria, um acidente do futebol.
A Fiel foi ao delírio. O empate prenunciava algum horizonte, depois daquele terrível temporal e do gol de Pintinho. Até o fim do primeiro tempo, nenhuma surpresa, e mesmo a chuva cessara.
Na etapa final, o Fluminense continuou melhor, e aí foi a vez de Tobias se destacar com boas defesas. Basílio entrou em lugar de Givanildo, numa tentativa do técnico Duque de buscar a vitória no tempo regulamentar. Mas o 1×1 persistiu, e Saul Mendes convocou, depois do apito final, os capitães para informá-los dos procedimentos para a cobrança de pênaltis, que decidiriam a sorte do domingo.
Minutos longos, tensos, os 150 mil torcedores divididos entre ansiedade, otimismo, insegurança, pressentimentos vários, uma catatonia coletiva. Cada qual vivendo seu silêncio.
A cobrança inicial foi de Neca, o gaúcho. Pousou a bola sobre a marca de cal, tomou pouca distância, olhou o goleiro Renato, certamente ouviu a respiração da torcida em torno, e foi para o tudo ou nada. Deu tudo, 1×0 na terceira etapa.
Trocados os goleiros, Tobias ajeitou-se sob o travessão. Gritou alguma provocação a Rodrigues Neto, que cheio de certeza foi de pé esquerdo para a bola. E Tobias defendeu! Delírio da Fiel, bandeiras alvinegras são novamente desfraldadas. Mas a tortura continuou.
Era a vez de Ruço, o de Madureira. De camiseta suja de barro, fechou os olhos, correu, chutou e converteu. Mais aplausos corintianos, 2×0 nos pênaltis! Ele comemora, e quem chega agora é ninguém menos que o capitão Carlos Alberto. Cobrador oficial até da Seleção, apanhou a bola com elegância, tomou distância, partiu e chutou. Tobias defende outra vez! Incrível, a Fiel parecia nem acreditar no que estava acontecendo diante de seus olhos.
Moisés, o xerife, caminhou para a marca fatal. Não tinha bem o perfil de um cobrador, mas assumiu a responsabilidade. Sem firula nem mandinga, chutou e marcou 3×0. A decisão estava praticamente liquidade, dependia de um único gol. Ou, então, que Carlos Alberto Pintinho perdesse a terceira cobrança carioca. O garoto cobrou e converteu, 3×1.
Nessa altura, as chances de vitória eram superiores a 90%, mas as duas décadas de fila tinham catequizado a Fiel: jogo só acaba quando termina, ponto.
Chegou a vez do grande Zé Maria. Com ele, o torcedor sabia que não haveria erro. Poderia até errar, mas só por conta de uma desgraça misteriosa. O SuperZé repetiu o rito dos companheiros, e pôde perceber que o goleiro Renato estava lívido com a responsabilidade, pois dele, ou das traves, ou de um chute equivocado, dependeria a sorte do Flu. Zé correu para a bola com toda a firmeza, disparou um petardo e definiu o placar, 4×1 para o Timão. Em algum ponto da arquibancada, subiu a faixa que dizia: ‘Chora, Rivelino’.
Rivellino, naquele dia, preferiu apenas testemunhar a decisão, não se apresentando para a lista dos cobradores, ele que era um notório e excelente cobrador.
Festa na favela, festa da Fiel, a partir daquele domingo o Rio e o futebol brasileiro jamais seriam os mesmos.
(na decisão do título, realizada no Beira-Rio, o Coringão foi derrotado por 0×2, gols de Dario e Valdomiro, mas quem viveu a invasão do Maracanã levou a certeza de que nada, ou muito pouco, na vida, irá superar a emoção da vitória de 5 de dezembro de 1976)