Dívida do Corinthians com a Caixa caiu pela metade em 12 anos; relembre evolução


Dívida do Corinthians com a Caixa caiu pela metade em 12 anos; relembre evolução

No total, a dívida com a Caixa é de R$ 611 milhões, mas sofrerá reajuste anual de CDI, hoje em 13,25%, e será paga em duas décadas

Corinthians e Caixa Econômica Federal chegaram a um acordo na segunda-feira a respeito dos pagamentos pendentes da Neo Química Arena

Categorias: Futebol Brasil

Por: Agência Estado, 26/07/2022

Neo Química Arena, estádio do Corinthians (Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians)

Campinas, SP, 26 – Corinthians e Caixa Econômica Federal chegaram a um acordo na segunda-feira a respeito dos pagamentos pendentes da Neo Química Arena. Com a assinatura do presidente do clube, Duilio Monteiro Alves, e a unanimidade entre os conselheiros acerca dos termos do novo acordo, foi oficializada o projeto para a quitação do empréstimo durante os próximos 20 anos.

No total, a dívida com a Caixa é de R$ 611 milhões, mas sofrerá reajuste anual de CDI (Certificado de Depósito Interbancário), hoje em 13,25%, e será paga em duas décadas, como a primeira parcela prevista para janeiro do ano que vem. Serão R$ 300 milhões provenientes da negociação dos Naming Rights à Neo Química e os outros R$ 311 milhões, em prestações de aproximadamente R$ 16 milhões. A negociação se arrastava há anos.

Duílio Monteiro Alves comemorou a aprovação do acordo por meio de suas redes sociais. “Assinamos! No ritmo que a negociação exigiu desde o dia 1. Com orgulho, damos este passo e agradeço a todos os envolvidos. Divido essa vitória com o presidente Andrés Sanchez, que iniciou esse processo, o Conselho e todos que torceram por nosso final feliz com a Caixa. Vai, Corinthians!”, postou o presidente corintiano, 11 anos depois das primeiras tratativas da negociação.

Iniciada sua construção em 2011, a Neo Química Arena, que nasceu apenas Arena Corinthians e popularmente foi chamada de Itaquerão, atravessou cinco mandatos de presidentes do clube, desde a apresentação do projeto até o acordo que quitará as dívidas com a Caixa Econômica Federal. De Andrés Sanchez a Duílio Monteiro Alves, o Estadão faz um levantamento dos últimos 12 anos da arena e a evolução das dívidas que acompanharam o Corinthians nesse período.

2010 A 2014 – O SONHO DE TER ESTÁDIO PRÓPRIO

No aniversário de 100 anos do Corinthians, Andrés Sanchez, então presidente do clube, revelou em evento para cerca de 150 mil pessoas o projeto para a construção do novo estádio, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Na preparação para a Copa do Mundo de 2014 e com o imbróglio entre Fifa, a diretoria de São Paulo e o Morumbi para a definição do estádio como sede da cidade para a competição, o projeto corintiano acabou, além de concretizar o “sonho da casa própria” da torcida, sendo definido para receber o Mundial no Estado.

As obras foram iniciadas em 2011 e o projeto estava orçado, inicialmente, em R$ 335 milhões, que se tornaram R$ 858 milhões e mais adiante em R$ 1,2 bilhão, conforme a evolução das obras. Para arcar com os custos, o clube contraiu em 2013, pelo então presidente Mário Gobbi, empréstimo no valor de R$ 400 milhões com a Caixa Econômica Federal, além dos Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento (CID) com a construtora Odebrecht.

Com mármore vindo da Grécia e da China, carpetes importados dos Estados Unidos e vidros italianos, esses detalhes de acabamento tornaram o estádio luxuoso. Adicionados ao projeto por desejo do então diretor de marketing do clube, Luis Paulo Rosenberg, a ideia era oferecer todo esse “pacote de luxo” a potenciais patrocinadores, assim como a venda do naming rights da arena.

As obras, que estavam previstas para serem finalizadas em 2013, atrasaram. A arena foi inaugurada oficialmente em 18 de maio de 2014, menos de um mês antes do início da Copa do Mundo, em um jogo entre Corinthians e Figueirense, válido pelo Campeonato Brasileiro. Os visitantes ganharam por 1 a 0.

2015 A 2020 – AS DÍVIDAS COM A CAIXA E O “NAMING RIGHTS”

No projeto inicial, estava previsto que a Arena Corinthians fosse paga, majoritariamente, pela receita da bilheteria no estádio. O contrato inicial, feito via BNDES, tinha juros em torno de 9% ao ano, com aumento para 12% em caso de inadimplência. Andrés Sanchez reclamava, durante suas entrevistas, que o clube pagava as maiores taxas quando comparadas às outras arenas erguidas para a Copa do Mundo de 2014.

Para conseguir o financiamento da Caixa, o clube colocou como garantia do pagamento de R$ 420 milhões parte do terreno do Parque São Jorge. Em 2019, o banco e o Corinthians chegaram a um primeiro acordo verbal, que previa o pagamento de todas as dívidas até 2028. Andrés garantia à época que o prazo era o suficiente e que conseguiria arcar com o planejamento.

Entretanto, em 2020, a situação entre Corinthians e Caixa piorou com a pandemia. Em fevereiro, o banco cobrou na Justiça o pagamento de R$ 536 milhões (o clube afirmava que o valor cobrado deveria ser de R$ 487 milhões), que decidiu pelo bloqueio das contas corintianas. Até março daquele mesmo ano, quando as competições em todo o Brasil foram paralisadas, o clube já não pagava mais as parcelas mensais do seu estádio à Caixa. Não havia jogos, não havia público, não havia dinheiro.

Sem a receita da bilheteria, o Corinthians passou quase cinco meses acumulando dívidas, de acordo com a evolução dos juros, com o banco. Mesmo com o retorno dos campeonatos, o time teve de jogar com portões fechados em sua casa. O prejuízo médio, por receber os confrontos sem público, era de R$ 54 mil por partida.

Roberto de Andrade, ex-presidente do clube, afirmou à época que o acordo feito para a construção de seu estádio não foi o ideal, já que o Corinthians não tem, até hoje, acesso às receitas da bilheteria. “Não dá para falar que (a Arena Corinthians) é um erro, porque é o sonho de qualquer clube ter uma arena. Lembro muito bem que todo mundo criticava a forma que o Palmeiras negociou a arena dele por 30 anos com a (construtora) WTorre. E o Palmeiras continua com a bilheteria”, analisou.

No aniversário de 110 anos do Corinthians, Andrés Sanchez novamente anunciou novidades em relação à arena: o acordo de naming rights com a Hypera Pharma, que passaria a se chamar “Neo Química Arena”. Com R$ 300 milhões em contrato de 20 anos, o Corinthians deu os primeiros passos para concretizar o pagamento das dívidas. Mas a falta de fluxo no caixa, sem a presença de público e com o impacto da pandemia sobre a economia, ainda era uma questão a ser discutida.

“Adiantaram cotas de televisão e tudo isso tem de começar a pagar. Não adiantei nada de ninguém (patrocinadores). A dívida é problema, déficit é problema, mas não é que o Corinthians vai fechar amanhã ou está falido. Não vai ser o time mais rico do mundo. Antes era o Palmeiras, agora é o Flamengo e amanhã sei lá quem vai ser. O déficit não foi ideal, gastei mais do que deveria. Estamos com dificuldade de pagar conta pelo fluxo de caixa”, afirmou o então presidente à época.

Além das dificuldades em selar um novo acordo com a Caixa Econômica, Pedro Guimarães, exonerado do cargo de presidente do banco recentemente após denúncias de assédio sexual, brincava com as dívidas do Corinthians. “Me deixa bonito (se referindo ao cinegrafista). ‘Qual o teu time’? Corinthians? Vai ficar sem estádio. Fica esperto aí, se não pagar, a gente tira”, dizia.

2021 E 2022 – DUÍLIO E O NOVO ACORDO ENTRE CORINTHIANS E CAIXA

O acordo selado nesta semana entre Caixa e Corinthians era o ponto que faltava na gestão de Duílio no comando do clube. Ao assumir o cargo no início de 2021, a ressalva de conselheiros se baseava no novo presidente ser da mesma chapa de Andrés Sanchez e ter trabalhado durante o último mandato como diretor de futebol.

Em 2021, a gestão de Duílio focou em diminuir os gastos, para gerenciar as dívidas do clube em primeiro lugar. Desde então, buscou junto à Caixa o acordo que garantiria o fim das dívidas da Neo Química Arena. Mesmo assim, entre 2021 e 2022, a equipe conseguiu reforçar seu elenco, com as chegadas de Giuliano, Roger Guedes, Willian, Renato Augusto, Paulinho e do técnico Vítor Pereira. A dívida do clube gira em torno de R$ 1 bi.

“O Corinthians informa que assinou, hoje (dia 25), os documentos do acordo entre o clube e a Caixa Econômica Federal para a renegociação das obrigações relativas ao financiamento para a construção da Neo Química Arena”, anunciou o clube. “Desde 2020 que ambos vinham negociando uma nova maneira de chegar a um acordo pelo pagamento da dívida”, anunciou o clube em comunicado nas redes sociais.

Nesta temporada, o Corinthians tem podido contar com sua torcida na Neo Química Arena em todas as partidas. As rendas giram em torno de R$ 2 milhões. O time é vice-líder do Brasileirão e está nas quartas de final da Copa do Brasil e Copa Libertadores.

Corinthians após vitória diante do Atlético-MG (Foto: Rodrigo Coca/ Ag Corinthians)

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